28 fevereiro 2007

[CINE] Ô, seu caceta...

Se você ainda não viu Borat, provavelmente já leu ou ouviu sobre essa "excelente comédia", ou esse "filme fenomenal", ou sobre a "genialidade do comediante Sacha Baron Cohen" ao viver um repórter fictício do Cazaquistão que expõe os preconceitos dos EUA em um pseudo-documentário com pessoas reais.

Bem... Sinceramente não sei o que é mais caído: esse oba-oba todo em cima do filme ou o filme em si. Borat: O segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão viaja à América tem até seus bons momentos, mas com certeza você já viu tudo isso em algum lugar. E melhor. Os Simpsons já entregavam os podres da sociedade norte-americana não é dessa década. Programas de TV, como o Saturday Night Live, já faziam um humor escrachado e ácido em torno da política e costumes do tio Sam.

Nós mesmos já estamos mais que acostumados com essa linguagem que mistura jornalismo com humor. Já viu Casseta & Planeta? Borat é isso, só que no cinema e sem nada novo, genial, fenomenal ou excelente. É fácil constranger alguém na frente das câmeras dizendo o que ela não esperava ouvir ou fazendo uma pergunta que ela nunca pensou em responder. E é só isso que Sacha faz em seu filme. Um filme que supostamente deveria desbancar os norte-americanos, mas acaba deixando mal mesmo na fita o próprio Cazaquistão, como um país extremamente idiotizado e subdesenvolvido.

Com um senso de humor típico de um pré-adolescente, escatológico e quase sem sentido, fica difícil imaginar que os momentos mais politizados (e os únicos que realmente valem a pena ver) tenham sido propositais. Dá até pra rir, mas você consegue rir muito mais de graça, em casa, ligando a TV da sala.

21 fevereiro 2007

[CINE] Vida longa À Rainha

Sempre achei meio piegas estes filmes que falam sobre valores-de-uma-sociedade-e-seus-contrastes-com-os-valores-de-uma-pessoa-e-por-aí-vai. Mas felizmente o diretor Stephen Frears, com seu fantástico A Rainha, conseguiu mudar radicalmente meu conceito sobre o assunto.

Tudo se passa no intervalo de uma semana, quando a família real inglesa viveu num mundo de cabeça pra baixo. Tudo começa com Tony Blair (Michael Sheen, em sua segunda atuação como Blair), o candidato pra frentex do Partido Trabalhista, se elegendo o Primeiro-Ministro depois de 18 anos de conservadorismo no poder. Naquela mesma noite a ex-princesa Diana (um ícone pop moderno em meio ao tradicionalismo monárquico) morre em um acidente de carro em Paris. Dois fatos isolados que quase causaram uma revolução.

De um lado a Rainha Elizabeth II, segurando com mão de ferro o que resta da real tradição familiar. Um luto extremamente reservado por uma Diana Spencer que felizmente não fazia mais parte da família. De outro lado Tony Blair, com seu olho político na devoção extrema que o povo tinha pela ex-princesa. Uma guerra em que saem do ataque os cavaleiros com espadas e entram as emissoras de TV, a internet e os tablóides. Os únicos elementos do passado aqui são o castelo e sua rainha lá dentro.

Com atitudes contrárias às que o povo e a mídia exigem de uma rainha, Elizabeth II se torna uma bruxa má, a imagem oposta da "princesa do Povo", uma cinderela real que nasceu da plebe, benfeitora dos pobres e necessitados.

Nada é tão simples quanto parece e qualquer atitude nessa guerra pode ter conseqüências catastróficas. Blair sai em defesa de uma instituição praticamente oposta à sua atitude neo-liberalista e a bruxa má, em uma atuação extraordinária de Helen Mirren como Elizabeth II, mostra que é preciso muito mais que uma coroa pra ser uma rainha de verdade.

14 fevereiro 2007

[CINE] Excelente | Excelente

Já tinha gostado de O homem duplo (A Scanner Darkly) antes mesmo de ver o filme. Adaptado do livro escrito por Philip K. Dick (também criador obras que deram origem a filmes como Blade Runner, O pagamento e Minority report) e dirigido por Richard Linklater, o filme dificilmente seria ruim. E pra minha felicidade, eu estava certo: O Homem Duplo arrebenta.

Linklater é um camaleão. Dirigiu tanto Escola do rock como também é o responsável pelos (pra alguns, insuportáveis, pra outros, excelentes) Antes do pôr-do-sol e Depois do amanhecer. Ele foi o cara que usou brilhantemente a técnica de rotoscopia (animação feita em cima da filmagem de atores reais) em seu aclamado Waking Life. Na época, a técnica coube como uma luva para amplificar as discussões existencialistas do filme e, agora, com O homem duplo, ele repete a façanha pra entrar de cabeça no tom dark-futurista-viajante do mundo das drogas sintéticas.

O filme se passa sete anos no futuro, quando o policial Fred (Keanu Reeves) recebe a missão de investigar Bob e seu grupo de amigos viciados na nova droga do momento: a Substância D. Só tem um detalhe: Bob e Fred são a mesma pessoa. A polícia não tem idéia de que seu policial é o tal suspeito pois todos são obrigados a usar um uniforme-camaleão que esconde qualquer traço da fisionomia real de quem o veste. O problema é que Bob/Fred é também viciado na tal droga e um de seus efeitos colaterais é dividir os dois polos do cérebro. Isso faz com que sua personalidade (e a de seus amigos) também comece a se partir em duas. Com o tempo o nível de paranóia de todos chega ao extremo, rendendo os melhores diálogos doidões que você pode ver no cinema. E o melhor: com conteúdo.

Aliás, diálogo é o forte de Linklater. Unindo isso à técnica da rotoscopia, ele pôde levar O homem duplo ao limite. Apesar de muitos dos diálogos serem inspirados nas experiências reais dos amigos do diretor com entorpecentes, o filme não cai no discurso piegas de "não-use-drogas-porque-isso-mata". O homem duplo pode ser visualmente lisérgico mas é duplamente pé no chão. Mais que qualquer campanha antidrogas.

07 fevereiro 2007

[BLAH] É pique, é pique, é pique!

Parece que foi ontem... OK, na verdade parece que foi há muito mais de um ano e só se passaram 365 dias desde que o Com Pipoca surgiu por aqui.

Tudo começou (e continua exatamente igual) como uma brincadeira, com posts escritos para aqueles amigos (conhecidos ou não) que sempre aparecem pra ler e deixar um comentário. Sem contar aqueles que são praticamente forçados a aparecer pelos meus e-mails insistentes e recados no messenger avisando sobre os novos posts, hehe...

A verdade é que, como não tenho muito lá o que dizer, resolvi fazer uma espécie de retrospectiva. Se você estiver com saco (de pipoca também pode ser) e um tempão de sobra, relaxe na frente do computador e aproveite um pouco do que rolou por aqui desde a estréia:

[Brokeback mountain] [Boa noite e boa sorte] [Garotas do ABC] [Wolf Creek] [Johnny & June] [Tudo por dinheiro] [Vingança nos Stones] [Match point] [Capote] [Oscar 2006] [A pantera cor-de-rosa] [Firewall] [A home at the end of the world] [Caiu do céu] [A invasão das vendedoras de ingresso no cinema] [Cocoon - O retorno] [O plano perfeito] [Trilogia de Lucas Belvaux] [A lula e a baleia] [Missão impossível III] [Desvendando Lost 1] [Três enterros] [Uma vida iluminada] [Pergunte ao pó] [O som do trovão] [Isolation] [O corte] [Factotum] [Separados pelo casamento] [Cão de briga] [Eu, você e todos nós] [Quem somos nós?] [Superman - O retorno] [Napoleon Dynamite] [Transamérica] [Piratas do caribe: O baú da morte] [Desvendando Lost 2] [Clerks 2 e as garotas do You Tube] [Silent Hill] [Obrigado por fumar] [Querida Wendy] [800 balas] [A dama na água] [Fora de rumo] [Abismo do medo] [Desvendando Lost 3] [Festival do Rio 2006] [O diabo veste Prada] [Menina má] [O sacrifício] [Podcast Com Pipoca] [Pequena Miss Sunshine] [Dália Negra] [A última noite] [Os infiltrados] [Volver] [O grande truque] [A fonte da vida] [O desabafo das palmas] [Filhos da esperança] [O ilusionista] [007 - Cassino Royale] [Por água abaixo] [O amor não tira férias] [Garota da vitrine] [Os sem-floresta] [Diamante de sangue] [Mais estranho que a ficção] [Babel] [Déjà vu] [Perfume] [Apocalypto]

Ufa. Mas pra doze meses, isso tá longe de ser um trabalho de Hércules. Cabe muito mais pipoca nesse panelão todo aí. E olha que filme bom (e alguns que não precisavam ter nascido) foi o que não faltou desde a première deste blog

Muita coisa ficou de fora. Preguiça, falta de tempo, desleixo. E como toda virada de ano, seja lá em que época for, sempre vem aquela vontade de que, no ano seguinte, tudo seja melhor.

Bom, é esperar pra ver. 07 de fevereiro de 2008 logo, logo tá aí pra gente tirar a prova. Mas enquanto os 2 anos de Com Pipoca não chegam, quem me acompanha pra um chope?

02 fevereiro 2007

[CINE] Prenda-me se for capaz

Mel Gibson precisa levar uma coça por gerar tanta expectativa. Depois de mostrar com quantos baldes de sangue se faz uma Paixão de Cristo, Mel virou sua câmera nervosa para a América Central pré-colombiana e supostamente mostrar o fim de uma civilização.

Provavelmente o que mais chamou a atenção aqui (além das entrevistas polêmicas com o diretor) foi o fato de que os personagens de Apocalypto conversam 100% do filme em uma língua morta. Mas faltou Mel avisar que seu Apocalypto está muito mais pra um filme de perseguição do que pra uma história sobre a decadência de um povo (como o próprio nome nos leva a crer).

O estudo de um dialeto Maia e a reconstituição detalhada de uma época que faz até a mais chata das aulas de história ficar interessante bem que mereciam um roteiro mais bacana do que um simples pega-pega de mocinho e bandido. Como correria, o filme é sensacional, mas pára aí.

As duas únicas referências à tal queda dessa civilização chegam a ser tão constrangedoras quanto botar Mel Gibson pra rezar numa sinagoga. Olha só a seguinte frase que abre a película: "Uma grande civilização não se conquista por fora sem que antes se destrua por dentro". A citação de Will Durant, assim, no começo, logo é esquecida com o corre-corre sangrento. Mas tudo o que se vê no filme, por mais erros históricos que se possa ter, são os costumes de um povo. Não sua degradação moral.

Aliás, quem pode definir o certo e o errado nas atitudes de uma civilização a qual nunca pertenceu? Mel acha que pode. Tanto que pinta a chegada das caravelas de Hernández de Córdoba com um certo tom de alívio. Quem não dormiu nessa aula de história sabe que não foram bem os sacrifícios aos Deuses ou a correria frenética pela floresta que significaram o fim de uma grande civilização...

28 janeiro 2007

[CINE] Respire fundo e boa viagem

Basta um filme ser adaptado de um best-seller pra que aquele medinho de obra estragada gele o estômago. Junte a isso um trailer que não ajuda nada a entender do que se trata a tal adaptação pra que a vontade de vê-la caia de vez por terra.

Assim como quase todos os filmes-de-livros, isso acontece também com Perfume, o cultuado suspense escrito pelo alemão Patrick Süskind, que agora ganha sua versão para o cinema nas mãos do também alemão Tom Tykwer (de Corra Lola, corra). Esqueça aquele trailer que vende o filme como mais uma historinha de serial killer de época. Esqueça o erro que foi a adaptação de O código da Vinci. Perfume faz parte de uma outra categoria.

Tykwer abriu mão de sua câmera nervosa, com cortes videoclípticos e som no talo pra trazer ao cinema o que Süskind trouxe para o livro: a nítida sensação de estar sentindo todos os cheiros e sensações descritos na história. Acredite: Perfume é o filme mais aromático dos últimos tempos, com uma fotografia impecável, até na mais repugnante imundície da França do século XVIII.

O narrador em off dá um tom de fábula à história de Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw), um garoto que nasce com o olfato extremamente apurado. Ele é capaz de ver tudo à sua volta apenas pelo cheiro e, quando cresce, decide capturar estes aromas naturais e guardá-los para si. É aí que Jean sai em busca da essência perfeita, aprendendo tudo o que o perfumista decadente Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman) consegue ensinar. O problema é que a fonte da tal essência que Jean-Baptiste procura está em corpos femininos. Começa então sua saga para reunir os aromas do seu perfume ideal. Como? Matando mulheres para destilar seus cheiros.

Perfume bem merecia ser falado em francês. Com certeza a sensação de veracidade seria bem maior. Idiomas à parte, Tykwer só derrapa mesmo no final. Em um dos momentos mais lúdicos da trama, o tom de fábula se perde e tudo parece um pouco descabido do contexto. Mas nada que mude o fato de que Perfume é um filme que merece ser visto e, principalmente, sentido.

25 janeiro 2007

[CINE] Você já viu isso antes

Não é C.S.I. mas tem um corpo e um local do crime sendo analisados por peritos; não é Em algum lugar do passado, mas tem um homem apaixonado por uma mulher que já se foi; não é De volta para o futuro, mas tem um cara que volta no tempo pra mudar o rumo das coisas; não é Titanic mas tem uma grande tragédia no mar; não é Minority Report mas tem uma equipe de policiais que trabalha, não vendo o futuro, mas o passado. Enfim, Déjà Vu é isso mesmo: nada.

Não vou bancar o ingênuo dizendo que um filme deve ser mais arte e que não pode ter um lado comercial. Mas nessa onda de produtizar tudo o que se faz, algumas coisas passam do limite. A presença de tantas situações diferentes pra tentar pescar o maior número de espectadores possível gera uns trambolhos milionários como este produzido pelo pipoqueiro-mor Jerry Bruckheimer (Con air e Armageddon). Tudo o que você já viu está ali. E pra tentar dar um mínimo de coerência a essa balela toda, o roteirista Terry Rossio (Godzilla e A máscara do Zorro) abusa de diálogos cafonas, desfechos previsíveis e situações tão constrangedoras quanto qualquer cena de Páginas da vida.

Pra não ser o ranzinza que odeia blockbusters, o filme tem duas virtudes (duas tá bom, né?): o filme foi rodado em Nova Orleans logo depois do furacão Katrina, criando vários empregos temporários e movimentando a economia da cidade. E a perseguição de carros, em que o policial Doug Carlin (Denzel Washington de novo interpretando Denzel Washington) persegue um carro que está quatro dias no passado.

Por falar em passado, é lá mesmo que Déjà Vu pode ficar.

22 janeiro 2007

[CINE] Variações de um mesmo tema

Atuações impecáveis, trilha sonora no ponto, fotografia de encher os olhos, direção inteligente e correta. Isso é o mínimo que se espera de um bom filme. E é o que Babel, terceiro filme da "trilogia" de Alejandro González Iñárritu, baseada na teoria do caos, apresenta.

Pra ser sincero, não entendo muito essa onda de trilogias de um mesmo tema. Trilogia de uma grande história contada em três partes, OK. Mas três variações de um mesmo tema cansam. E mesmo com tudo amarradinho e cenas realmente tensas que valem a pena serem vistas, Babel também cansa.

Há seis anos, Iñárritu alcançou seu cantinho no mundo do cinema com Amores brutos e sua série de eventos catastróficos com ligação improváveis, mas possíveis, bem amarrados pelo roteirista Guillermo Arriaga. A dobradinha Iñárritu-Arriaga se repetiu três anos depois com 21 gramas, só que com um elemento novo: a completa falta de ordem cronológica na montagem. Nada tão inovador, mas pelo menos mexeu um pouco com a estrutura. Mas agora, com Babel, o tal elemento novo já está mais que batido e datado.

O preconceito e o medo depois do 11 de setembro ou a completa falta de comunicação entre as pessoas em um mundo ultrateconógico e globalizado já são clichês não é de hoje. Babel junta isso tudo em um filme só que tecnicamente tem tudo de bom, mas que de novo não tem nada.

19 janeiro 2007

[CINE] Sua vida daria um livro?

Você acorda de manhã, desliga o despertador, vai até o banheiro, pega a escova de dentes e, de repente, ouve tudo o que está fazendo ser narrado, como se você fosse um personagem de um livro. Pior, você descobre que você não passa de um personagem fracassado e que vai morrer a qualquer momento. Sua rotina patética e sem emoção são os últimos capítulos de sua vida. Que tal?

Assim começa o genial Mais estranho que a ficção, do diretor Marc Forster (A última ceia e Em busca da Terra do Nunca). O personagem em questão é Harold Crick (no melhor papel e atuação de Will Ferrell). Ele é um cobrador de impostos da Receita Federal que, ao ouvir a narradora e escritora em crise Kay Eiffel (numa inspiradíssima performance de Emma Thompson), percebe estar vivendo os últimos momentos de sua vida. E Harold não tem controle nenhum sobre isso.

Poderia ser mais um filme indie sobre losers que, no final, encontram seu lado bacana, mas não é. Isso graças ao ótimo trabalho do roteirista estreante Zach Helm, que, com um quê esquizofrênico típico de um filme de Charlie Kaufman (Adaptação), deu a Mais estranho que a ficção um toque inteligentemente agridoce. É como se esta comédia beirasse os romances trágicos dos livros que a personagem Kay Eiffel escreve no filme.

Aliás, estas relações entre a realidade e a ficção são a grande sacada do filme. Nada original, mas bem competente ao mostrar como só podemos tomar conta de nossa vida quando realmente entendemos o que está acontecendo com ela. Só aí podemos deixar de ser apenas personagens pra sermos também narradores de nossa própria história. Imperdível.

15 janeiro 2007

[CINE] Um filme bem lapidado

O chato de um filme com pano de fundo sócio-político é que, ou ele descamba pra um falatório sem fim ou ele acaba virando maaais um filme de ação, perseguição, explosões e casal que se beija no final.

Diamante de sangue, pelo menos, consegue ser um pouco diferente. Não que ele não tenha diálogos engajados ou explosões (tem, e muito). O fato é que ele consegue reunir tudo isso sem ser um depositório de clichês. O filme conta a história do pescador Solomon Vandy (Djimon Hounsou), que tem sua vila devastada por rebeldes em Serra Leoa. Sua família consegue fugir mas ele é forçado a trabalhar em uma mina de extração de diamantes, onde encontra uma pedra de tamanho fenomenal, mas na verdade só quer a família de volta.

Em paralelo, conhecemos Danny Archer (Leonardo DiCaprio), um traficante de diamantes que fica sabendo da existência da tal pedra e precisa tê-la a qualquer custo se quiser continuar vivo.

O jogo de interesses se completa com a jornalista Maddy Bowen (Jennifer Connelly), que busca provas do contrabando de diamantes de conflito para os países ocidentais para conseguir finalizar sua matéria bombástica.

Cada personagem tem um um trunfo na manga pra conseguir aquilo que procura. E o diretor Edward Zwick (O último samurai) manda muito bem em manter tudo na base do toma-lá-dá-cá. Nada de traficante com pena do pobre coitado africano e se redimindo por causa de uma nova grande amizade. Nada de garota apaixonada que resolve arriscar sua vida pra ficar ao lado do mocinho-bandido.

Diamante de sangue só podia ter uns 30 minutos a menos. E não é difícil. Tirando sua duração desnecessariamente esticada, o filme equilibra muito bem os momentos de ação com o tema sócio-político. Tanto que as empresas do mercado de diamantes se adiantaram ao filme e começaram a exibir certificados de que suas pedras não são diamantes de conflito. É um bom exemplo de como um filme pode ser tão pipoca quanto engajado. Vale a pena.

10 janeiro 2007

[DVD] Finalmente eu vi

Além da companhia de amigos, tem uma outra coisa boa em ficar de molho dez dias, sem poder sair de casa, com um tempo feio lá fora e uma febre alta aqui dentro: O controle remoto do DVD com uma pilha de filmes do lado. E foi isso que aconteceu logo nos primeiro dias de 2007. Deu pra tirar da fila aqueles filminhos que sempre ficam pra depois. Vou pular os enganos e os mais ou menos e ir direto a dois que você pode pegar sem medo.

Os Sem-Floresta (Over the hedge)
Se você sempre passa longe desse filme porque os bichinhos são fofiiiinhos demais e não quer esse melê todo na sua televisão, pense outra vez.

A história e um grupo de animais prestes a perder sua floresta para a expansão de um conjunto habitacional de humanos é só o pano de fundo pra uma série impagável de piadas com referência bem adultas. Bote aí na lista clássicos como Cidadão Kane (de Orson Welles) e Um Bonde Chamado Desejo (de Tennessee Williams).

Sem contar que é impossível não se encantar com a tchutchuquice do guaxinim RJ (voz de Bruce Willis) e do esquilo trincadão Hammie (voz de Steve Carrel). A cena lá no final com a lata de energético é pra entrar pros clássicos de cinema de animação.

***

Garota da Vitrine (Shopgirl)
É completamente compreensível você deixar esse DVD de lado quando ver que quem escreveu o livro, adaptou o roteiro, atuou e produziu este filme é o comediante Steve Martin (aquele de O pai da noiva, Roxanne, e A pantera cor-de-rosa).

Mas acredite: Garota da Vitrine mostra um Steve Martin completamente diferente do que conhecemos. É uma espécie de romance dramático, ou drama romântico. Sensível, inteligente, adulto. O filme conta a história de um triângulo amoroso entre Jeremy (Jason Schwatzman), um completo looser apaixonado, Mirabelle (Claire Danes), uma vendedora solitária de uma loja de departamentos que nunca soube o que é ser amada e Ray (Steve Martin), um cinqüentão carinhoso, bonito e milionário, mas que só faz questão de ver Mirabelle nas noites em que passa em Los Angeles.

A maneira como essa história é contada pelo diretor Anand Tucker (que, aliás, vai dirigir o sexto filme de Harry Potter ainda em pré-produção) é de encher os olhos.

05 janeiro 2007

[CINE] Perrier com açúcar orgânico

Virei fãzaço da roteirista e diretora Nancy Meyers com o excelente água com açúcar Alguém tem que ceder. Depois do bobinho Do que as mulheres gostam, parece que ela acordou pra vida e aprendeu a fazer um filme redondo, leve, bem contado e com situações capazes de fazer você, num segundo dar uma gargalhada e, no seguinte, derramar aquela lágrima disfarçada no canto do olho.

Por isso não pensei meia vez em correr pro cinema quando vi que O amor não tira férias (The Holiday), já estava em cartaz. Mas será que ela conseguiria se superar depois da excepcional dobradinha Jack Nicholson / Diane Keaton? Bem, digamos que depois de Nancy, o filme água com açúcar finalmente ganhou uma grife chique e inteligente no cinema.

Mas não pense que, por isso, o gênero romance tenha se tornado "mais mulherzinha". Pelo contrário. O quarteto Jude Law / Kate Winslet / Jack Black / Cameron Diaz funciona como um batedor de carne daqueles que as nossas mães usavam pra amaciar um bife, só que capaz de amolecer o coração do cara mais pitboy da platéia.

Tudo começa quando a superbem sucedida diretora de trailers de cinema Amanda (Cameron Diaz) resolve dar um tempo do trabalho e de seus relacionamentos fracassados em Los Angeles. Numa busca na internet, ela descobre um site de troca de casas por uma temporada e escolhe o chalé-pobre-e-fofinho de Iris (Kate Winslet) num vilarejo na Inglaterra. Iris, por sua vez também está cansada de sofrer por um amor que, além de não correspondido, vai se casar com outra em breve. Pronto, as duas resolvem trocar, não só de casa, mas de vida por alguns dias.

Mas isso é só o ponto de partida pra uma história cheia de detalhes emocionantes e personagens tão cativantes que dá vontade de levar pra casa. Os pensamentos de Amanda em formato de narração de trailer são impagáveis. E duvido que você não fique boquiaberto quando descobrir a verdade sobre Graham (Jude Law). Bem, se seu clima é ficar bem zen com um sorrisinho no rosto, este é um ótimo remédio. E procure por Nancy Meyers na hora de ir com sua namorada ou namorado pra locadora. Essa mulher sabe fazer o filme perfeito pra aquele sábado de chuva em que tudo o que você quer é um balde de pipoca de um lado e um grande amor do outro.

29 dezembro 2006

[CINE] Pode apertar a descarga

Se você amou o estilo de animação com massinha de A Fuga das Galinhas e Wallace & Gromit - A Batalha dos Vegetais, pode até se ver atraído pelas carinhas fofas dos personagens de Por Água Abaixo (Flushed Away), feito pelos mesmos caras, só que ao invés do quadro a quadro das massinhas, temos aqui os computadores da Dreamworks trabalhando.

O problema é que o roteiro e a direção parecem ter escoado pelo ralo. Sobrou um monte de cenas de ação, perseguições chatas e umas piadas que subestimam a inteligência de uma lesma. Aliás, a única coisa que dá pra aproveitar nesse filme são umas lesmas que aparecem vez ou outra com umas sacadas ótimas.

Bem, se você ainda não desanimou de ver Por Água Abaixo e quiser saber do que se trata, lá vamos nós. O filme conta de um rato de estimação Roddy, dublado por Hugh Jackman, que fica com a casa toda pra ele quando seus donos saem pra viajar. A casa é toda dele até que chega do esgoto o rato Sid, que se livra de Roddy jogando-o numa privada e dando a descarga.

O todo playboy Roddy cai então no esgoto de Londres, onde descobre existir toda uma cidade de ratos, parecida com a Londres dos humanos. Até aí o filme tem um ótimo gancho pra ser ótimo. Uma Inglaterra de ratos. Haja material pra ser parodiado. Só que a nítida preguiça do roteirista transformou o resto numa balela de perseguição por uma jóia com direito a sapos malvados e um plano que nem uma criança de oito anos acharia inteligente ou engraçado.

Não é à toa que essa produção de 143 milhões de dólares só tenha rendido até dezembro passado meros 60 milhões nos EUA. Acredito que por aqui não vai ser muito diferente.

22 dezembro 2006

[CINE] Jack Bauer que se cuide

Ele voltou em grande estilo. Quem não dava nada pro loiro grandalhão Daniel Craig no papel do espião mais mortal do cinema, teve de dar o braço a torcer. Depois do eterno charme de Sean Connery, das trapalhadas de Roger Moore, do erro que foi Timothy Dalton e do jeito correto de Pierce Brosnan no papel de 007, não parecia faltar nada para se acrescentar ao personagem. Mas Craig conseguiu fazer com que, além disso tudo, o espião a serviço de Sua Majestade se transformasse num Macho de verdade.

O bacana disso tudo é que 007 - Cassino Royale foi a primeira aventura do espião escrita por Ian Fleming nos anos 50. Ela teve uma versão não-oficial no cinema rodada em 1967 e com direito até a Woody Allen no elenco. Mas só agora ela incorpora a lista oficial de filmes.

Apesar de ser o vigésimo primeiro longa, 007 - Cassino Royale conta, nos dias de hoje, a primeira aventura do espião com licença para matar. Afinal, quem precisa de alguma seqüência lógica nos roteiros quando se tem as cenas de ação mais eletrizantes, as mulheres mais fatais, os brinquedinhos tecnológicos mais bacanas e os vilões com defeitos físicos mais malvados do cinema?

A grande diferença deste Cassino para os vinte filmes anteriores é o enfoque em um 007 bem mais humano, que também erra e ama. Com isso, muito dos exageros cometidos nos últimos filmes, como carros invisíveis e relógios que lançam lasers capazes de perfurar paredes, felizmente nem aparecem. Graças ao diretor Martin Campbell, que deixou tudo um pouquinho mais pé no chão, acompanhando o tom do personagem. Aliás, personagem que está bem mais pra heróis atuais como Jack Bauer do que pra galãs que não se despenteiam nem pulando de um avião em chamas.

Não vou perder tempo aqui falando sobre a trama, sobre a Bond girl e sobre o novo vilão com defeito físico. Isso tudo já era pra você estar vendo nesse exato momento. Então se ainda não viu 007 - Cassino Royale e não perde uma boa pancadaria, carrões turbinados, um joguinho de Poker de fazer suar frio e um bom martini batido, nao misturado, corra! Afinal estamos falando de Bond. James Bond.

17 dezembro 2006

[CINE] A desilusão

Pra quem já viu O Grande Truque (The Prestige), de Christopher Nolan, O Ilusionista pode ser uma grande bobagem. Pra quem não viu também. Este filme dirigido pelo novato Neil Burger promete uma viagem de mistério e romance. Mas o que entrega no final das contas é um amontoado de clichês e uma trama tão dramática e profunda quanto um especial de natal da Globo.

Baseado no conto "Eisenheim, o Ilusionista", de Steven Milhauser (ganhador do Pulitzer em 1997), o filme aproveita mesmo só o nome "Eisenheim". No filme, o tal Eisenheim (Edward Norton desperdiçando talento com essa brincadeira), é um pobre garoto de Viena que se apaixona pela jovem aristocrata Sophie. Daí em diante, se você viu qualquer filme que copie Romeu e Julieta, você já sabe o resto. Privado do amor de sua namoradinha, só resta ao pequeno Eisen treinar seus truques de mágica até se tornar o maior ilusionista que a Europa já viu.

Ele cresce, faz suas mágicas bem pra cacete, volta para Viena e inicia um caso com Sophie (Jessica Biel), agora futura esposa do príncipe Leopold (Rufus Sewel). Por essas e outras, começa a ser perseguido pelo inspetor de policia Uhl (Paul Giamatti).

Talvez os únicos que mereçam palmas sejam o fotógrafo Dick Pope, o cinegrafista Ondrej Nakvasil e o compositor Philip Glass. É pelas mãos destes caras que a cidade de Praga se transformou em uma Viena totalmente verossímil. A estética dada ao filme é a mesma dos filmes do cinema mudo, com imagens lavadas e aquele fade típico da época, em que a câmera fecha a imagem em uma bola focada no ponto principal da cena. E a trilha nos leva ao início do século XIX sem parecer datada. Mas pára por aí. De resto, O Ilusionista não passa de uma grande desilusão.

10 dezembro 2006

[CINE] Uma esperança que faltava

Estamos em 2027. Toda a humanidade está infértil. Já se passaram 18 anos sem nascer uma só criança e o mundo vive um grande caos social. Fome, doenças, guerras e xenofobia estão em seu ápice. E pra piorar, o cara mais jovem do mundo acaba de morrer.

Depressão geral. Menos para Theodore Faron (Clive Owen), um ex-ativista e atual mais-um-homem-comum. Ele é apático a tudo o que acontece. O que tinha de dar errado já deu. Na verdade, quase tudo. Até que ele se vê numa corrida contra tudo e todos para proteger uma imigrante negra, e única mulher grávida do mundo.

Com essa premissa apocalíptica o diretor mexicando Alfonso Cuarón (E Sua Mãe Também) mostra mais uma vez a que veio com Filhos da Esperança (Children of Men). Seu domínio de câmera e seus planos-seqüência são tão bem utilizados que conseguem passar a sensação exata do quanto este futuro imaginário pode estar próximo.

Em uma das melhores seqüências já realizadas no cinema, Theo corre por um campo de batalha enquanto mil coisas acontecem ao mesmo tempo, mas o único ponto de vista é o dele. Nada de grandes planos e tomadas épicas. Basta uma única câmera, sem cortes, atravessando todo o campo, assustada como mais um personagem do filme. É assim o tempo todo, seja na guerra, seja nas ruas de uma Londres sem esperança ou nos campos de concentração de imigrantes (agora todos ilegais).

Não faltam referências ao nosso passado e nosso presente. Tirando a infertilidade generalizada, praticamente tudo em Filhos da Esperança já aconteceu ou acontece hoje. Talvez seja por isso que o tempo todo temos a sensação de estarmos nesse futuro, seguindo em silêncio os passos de Theo através dos olhos de Cuarón. Um olhar que realmente vale a pena conhecer de perto.

05 dezembro 2006

[DVD] Pra esses dias de sofá

OK, fiquei um looongo tempo sem postar. Foi mal, galera. Mas sabe como são aqueles dias em que não dá tempo nem pra pensar no que não tá dando tempo de fazer? Pois é. E pensando nessa falta de tempo pro chope ou pra uma fila de cinema, que selecionei umas dicas pra você pegar na locadora e se esbaldar no sofá de madrugada.

Meu Encontro com Drew Barrimore
Esse aqui passou no Festival do Rio. Quem não viu e estiver na pilha de enfrentar um documentário na linha documentarista-personagem-olhem-pra mim (como o excelente Super Size Me), pode gostar.

Aqui você vai ver como um cara chamado Brian Herzlinger faz de tudo pra se encontrar com a atriz Drew Barrimore. Parece bobo (e é mesmo), mas se o clima é de deixar os neurônios descansarem, vá fundo.

O filme foi feito em apenas 30 dias e custou pouco mais de mil dólares, mas rendeu uma boa leva de fãs.

O Abismo do Medo
Quem ainda não viu esse terror de deixar muitos por aí no chinelo, não deixe de pegar pra ver bem no meio da madrugada com as luzes apagadas.

Se quiser ler mais sobre este filme, clique aqui.

O Código da Vinci
Hahaha. Te peguei! Posso indicar coisas trash, mas não faria você perder seu tempo com um filme tão ruim que é capaz de fazer um best seller ser pior e mais chato que qualquer filme da Xuxa (com excessão de A Princesa Xuxa e os Trapalhões, claro, hehe).

Roma - 1a Temporada
Se o seu negócio é gastar algumas longas horas seguindo todos os episódios de uma temporada que não teve tempo ou saco pra ver nos horários absurdos da TV, não pense duas vezes quando encontrar Roma na prateleira da sua locadora.

Essa superprodução da HBO mostra, sem pudores, os dia-a-dia de uma das mais importantes cidades do mundo, 52 anos antes de Cristo. A´liás, qualquer série da HBO que você encontrar na prateleira, terá uma grande chance de não se decepcionar. Estou viciado em Família Soprano anos depois de ter estreado. E vai merecer um longo post ainda.

Vôo United 93
OK. O clima não é nem pra documentáro, muito menos terror e sai-pra-lá-produção-made-for-tv? Que tal um drama baseado nos ataques de 11 de setembro?

Paul Greengrass (o diretor de A Supremacia Bourne) mandou bem ao contar a história do quarto avião seqüestrado,com destino à Casa Branca, e que suportamente foi derrubado por uma rebelião de seus passageiros.

Um detalhe bacana: o filme se passa em tempo real e é bem melhor que aquela bobagem do Oliver Stone sobre as Torres Gêmeas com Nicolas Cage de bigodinho à la YMCA.

Pronto. Agora é botar a pipoca no microondas, a cerveja no congelador, os pés pra cima e relaxar. E volte logo porque o Com Pipoca vai bombar pra esse final de semana.

24 novembro 2006

[BLAH] Só um desabafo

Bem antes que o homem se entendesse por gente, o ato de bater as palmas das mãos uma na outra já significava contentamento, alegria, satisfação, ou pedido de mais um peixe (não, peraí, esse é das focas).

O fato é que, até hoje, quando gostamos de um discurso, uma peça de teatro ou um show de música, naturalmente aplaudimos. As possibilidades do ato de bater palmas são quase infinitas, desde que, claro, exista alguém ali pra recebê-las, ou pra ficar sem graça com elas (E no caso das focas, desde que exista alguém com um balde cheinho de peixes por perto).

O aplauso é tão antigo no mundo que tem inúmeras variações dependendo de cada cultura. Na maioria dos países ocidentais, por exemplo, quanto mais barulho gerado pelo apluso, melhor foi o espetáculo. Mas tanto no caso dos homens, quanto no das alegres foquinhas, existe um fator em comum: alguém está presente pra receber as palmas.

Agora imagine essa cena: Você está com alguns amigos no sofá da sua sala vendo TV. O filme acaba. Sem olhar um pro outro, vocês começam a aplaudir. Seu colega do lado levanta-se emocionado e os outros acompanham. Quando o momento emoção acaba, você desliga a TV e sai com a galera pra tomar uma cerveja. Meio surreal, certo?

Agora me explica porque cargas d'água algumas pessoas fazem exatamente isso no cinema. A diferença é que no lugar do sofá tem uma poltrona suja de pipoca e no lugar da TV tem uma tela do tamanho de uma parede. Detalhe: Não é de uma pré-estréia com a equipe do filme presente. É um filme (seja lá coreano, hindu, indiano ou qualquer coisa do tipo) feito sabe-se lá há quanto tempo e que só chegou aqui porque tinham que cobrir um buraco na programação de um festival de cinema. Pelo menos essa mania não se espalhou muito (ainda) fora do circuitinho hype dos festivais.

Será que essa horda que acompanha os aplausos faz isso porque leu que no festival de Cannes tal diretor foi aplaudido de pé ou qualquer coisa que o valha? Porque é hype? Porque é cool quem aplaude em festival? É possível. Agora, será que se uma foca ver um balde de peixes no chão, sem ninguém pra jogá-los na sua boca, ela também ficaria batendo palminhas pro nada? Hmmm... será?

22 novembro 2006

[CINE] Uma bela fonte de discussão

Sabe estes filmes oito ou oitenta? Quando você ama de paixão ou sai amaldiçoando até a últma geração do infeliz que teve a pachorra de filmar aquilo? É mais ou menos isso que A Fonte da Vida (The Fountain), o novo filme do diretor Darren Aronofsky (Pi e Réquiem para um Sonho) pode provocar nas pessoas.

Mas que fique bem claro: Essa relação de amor e ódio são mais culpa de como o filme está sendo vendido que do filme em si. Eu explico. A história de A Fonte da Vida, escrita por Ari Handel e pelo próprio Aronofsky, é bem mais conceitual do que um espera um público que vai ao cinema ver Hugh Wolverine Jackman. Pelo trailer é muito fácil imaginar uma grande aventura de amor com um quê de fantasia e imagenas deslumbrantes. Sim, o filme tem tudo isso, mas são só maneiras de falar de um tema bem mais profundo. Se você espera uma história simples, com moral fácil de ser pescada e um final feijão com arroz, pode se decepcionar feio.

A Fonte da Vida (que estréia nesta sexta-feira nos cinemas) conta três histórias paralelas. Uma passada no presente, em que o cientista Tommy Creo (Hugh Jackman, em sua melhor atuação), busca desesperadamente pela cura do câncer para salvar sua esposa Izzi (Rachel Weisz). Ele tem esperanças porque uma amostra tirada de uma árvore da América do Sul parece ter um poder de cura impressionante. Porém a planta parece ter um ótimo poder de longevidade, mas não de cura da doença. Enquanto Tommy prefere a solidão de suas pesquisas a ficar com sua esposa doente, Izzi escreve um livro sobre um conquistador (de novo Jackman) que parte em busca da Árvore da Vida a pedido de sua rainha Isabel (também Weisz). A terceira história é passada no futuro, quando o o cientista Tommy (adivinhe, Jackman) viaja pelo espaço em busca da última chance de trazer Izzi de volta.

Pode parecer complexo (ou até bobo), mas o fato é que A Fonte da Vida traz à tona questões difíceis de se encontrar no cinema. É daqueles filmes que você precisa digerir e tirar suas próprias conclusões algum tempo depois que os créditos finais sobem. As peças do quebra-cabeças vão se encaixando aos poucos.

Há quem ache o filme pretensioso, chato e com alguns diálogos beirando o clichê. Mas pelo que ele se propõe: provocar uma reflexão séria sobre a vida, a morte e a existência, A Fonte da Vida cumpre bonito o seu papel.

17 novembro 2006

[CINE] Existe magia no cinema

Um bom truque é realizado em três atos: O primeiro é a apresentação. Nele, o mágico apresenta à platéia algo perfeitamente comum e corriqueiro. Em seguida vem o segundo ato: a virada. É a hora em que algo acontece com o tal objeto comum e ele se torna especial, invisível, diferente. Mas o que realmente surpreende é o terceiro ato, chamado aqui por "The prestige". Ele é o grand finale que faz de um simples truque um grande acontecimento. É a reviravolta que encanta a platéia e deixa até mesmo outros ilusionistas verdes de inveja e se corroendo por não saber como aquilo é possível.

Em O Grande Truque (The Prestige), o diretor Christopher Nolan mostra que estas regras também valem para um grande filme. Não é de hoje que Nolan mexe com a platéia. Desde que lançou Amnésia, em 2000 e mais recentemente com Batman Begins, ele tem mostrado um verdadeiro mestre em tornar real e verossímil a idéia mais mirabolante.

Adaptado do livro The Prestige, de Christopher Priest, O Grande Truque fala da rivalidade entre os mágicos Robert Angier (Hugh Wolverine Jackman) e Alfred Borden (Christian Batman Bale) na Londres do finalzinho do século XIX. Na busca pelo truque perfeito e inimitável, Robert conhece Nikola Tesla (David Bowie), um personagem que existiu na vida real e que, no filme, cria uma traquitana que possibilita o tal grande truque. Essa história é contada sem nenhuma linearidade. Os saltos no tempo fluem com uma naturalidade impressionante e cada cena é mais uma peça de um complexo quebra-cabeças. Como em todo bom número de magia, está tudo ali, bem diante de seus olhos, basta prestar atenção no ponto certo. Mas Nolan é fera em tirar sua atenção da solução e concentrá-la somente naquilo que lhe interessa.

Mas o que é real? O que é magia? Afinal, existe magia? Qual dos dois mágicos é o bonzinho? Existe um bom? Não queira saber antes. Só saiba que a magia existe sim. E ela é toda do diretor Christopher Nolan. Existe muito mais do que simples sacadas dentro de sua cartola.